ARENA HOMME PLUS

OLHO POR OLHO

Coma “singela” missão delavar a honra dos Gracie, mais a incumbência de botar ordem no universo do vale-tudo, provando a supremacia do jiu-jitsu, Rickson vai, vence – brilhantemente – e adia por prazo indeterminado seu encontro com a derrota Além de ser uma demonstração única de técnica, força e destreza, a luta principal da noiti de 25 de maio, que lotou o Tokyo Dome – estádio japonês geralmente usado para partidas de beisebol -colocava em cheque toda a reputação da família Gracie. E do jiu-jitsu. Quem acom – panha o esporte viu, nos últimos seis meses, a invencibilidade do clã carioca cair por terra com as derrotas de Royler, Renzo e Royce. Isso tudo somado ao fato de que, desde a sua explosão nas primeiras competições de vale-tudo, o jiu-jitsu está numa posição pouco favorável. Se em 1993, Royce e o brazilian jiu-jitsu venciam facilmente qualquer outra modalidade no Ultimate Fighting, isso fez com que todos os lutadores passassem a treinar a modalidade para competir no vale-iudo. “Hoje, quem treina só jiu-jitsu não está preparado para o vale-tudo”, afirma ofaixa-preta e idealizado)’ da Liga Profissional de Jlu-jltsu do Brasil Fábio Gurgel “Atuaimente, todos misturam diferentes técnicas de luta e o mérito pessoal de cada atleta é o que fala mais alto”, diz ele. O fato é que, em pleno ano 2000. não existe mais o ideal romântico de cada lutador defender asua técnica. “Rickson Gracie é um caso à parte. É o único atleta no mundo que continua representando uma modalidade: o |iu-jitsu.” Irmão mais velho de Royce, Rickson sempre teve a vantagem de ser massudo. Com o avanço da idade – ele não a revela, mas especula-se que esteja com 41 anos -, pulou de 83 para 90 quilos, de puro músculo. O próprio lutador explica como ganhou peso. “Passei a fazer um treinamento de força para ganhar massa e não me machucar lutando.” Suas preocupações não deixam de ser, também, as de um pai de família: Rickson mora nos EUA desde 1990, é casado com a brasileira Kim Stavik e tem quatro filhos, dois garotos, Rockson (18 anos) e Kron (12), e duas garotas, Kauan (16) e Kaulin (14). Os meninos lutam jiu- jitsu e o mais velho acompanhou o pai nos treinamentos para essa luta. Apesar da idade, Rickson mantém a mesma flexibilidade de sempre, embora reconheça que hoje tem mais dificuldade para se recuperar. “No dia seguinte da luta, eu só queria ficar em casa e esperar o baque passar”, revelou à TRIP após o combate no Tokyo Dome. “Mas a sensação de missão cumprida faz da dor apenas um detalhe.” Diante da obrigação de botar a casa em ordem e provar para o mundo todo – a luta foi televisionada para 10 milhões de pessoas – que sua família e o jiu- jitsu ainda estão por cima, um corpo dolorido no dia seguinte parece um preço justo a se pagar. “Sou orgulhoso o suficiente para não gostar de perder, mas entrego sempre o resultado a Deus”, afirma. “Na ; manhã da luta, acordei pensando que aquele era um étimo dia… Até para morrer.” Seu desapego zen-budista é resultado de meditações que começam um mês antes do grande dia. Rickson se concentra em limpar a mente de todo e qualquer pensamento para poder ser capaz de executar o que “lhe cabe” sem medo algum. Gradualmente, atinge um outro nível de consciência. “Crio uma capa protetora que me tira da realidade. Só consigo pensar no momento em que estarei frente à frente com meu adversário”, diz. Terminado o último ciclo de treinamento-concentração-luta, Rickson tem o cuidado de lembrar que sua vitória não foi questão de sorte, já que é resultado de um trabalho de quatro meses – para não dizer de uma vida toda. “Vencer foi um alívio”, confessa, “mas a guerra não acabou. Agora sinto que a minha cabeça está mais valiosa e que tem muito mais gente querendo ela como trofeu.” (Phydia de Athayde)

“Começada a luta, tentei Controlar logo O meiO dO ringue, praeleficar entre mime as cordas. Entramos em clinche e ele ficou muito precavido para não ir para o chão. O Funaki, sendo mais pesado e mais forte, não queria ir pró chão comigo e isso me colocou na obrigação de derrubá-lo. Tive a paciência de cozinhá-lo em banho-maria e esperar a situação acontecer. A luta teria rounds de 15 minutos indefinidos até que alguém ganhasse, e ele quis tirar minha energia no primeiro round. Mas fui oportunista: comecei a dar uns socos em suas costelas e ele não se sentiu muito confortável. Depois aliviei – deixei a coisa ficar mais leve e ele saiu das cordas um pouco. Senti que meu ombro estava meio cansado, então troquei de lado… Ele tentou uma gravata; mas não havia pressão, porque meu braço estava por dentro, defendendo. Achei que poderia trazê-lo para o chão, rodar e cair por cima. Mas ele se apoiou com a mão e se manteve por cima. Aí, me acertou uma porrada. Bateu mais no olho que na cara, foi como se eu tivesse tomado uma dedada no olho. Fiquei deitado no chão; embora ouvisse o Royler gritar para eu levantar, achava que não era a hora ainda. Eu estava sem foco e passava a mão no olho para ver se melhorava. Quando começou a clarear, mirei o joelho dele e parti pra acertá-lo. Ficamos em pé, dei logo um soco na cara e agarrei. Ele botou a bunda muito para trás, como se estivesse nas cordas. Então, puxei-o para a frente e ele se desequilibrou. Montei na calma, desfiz a primeira pegada, pois ele estava me segurando, acertei-lhe umas porradas embaixo primeiro, depois abri a distância. Tentava melhorar o olho, que ainda estava mal nessa hora. Eu o achei meio perdido – ele estava dando a cabeça, pensando que eu ia no braço. Mas essa não era a intenção; pelo menos não naquele momento. Fiz um controle me- lhor, coloquei a mão por baixo, segurei meu próprio pulso para manter a cabeça dele bem justa no meu peito. Puxei para trás e fui pró pescoço. O Funaki não estava esperando. Ficou sem qualquer defesa. Dormiu, acordou, dormiu de novo. Continuei apertando. O juiz não falou nada. Mas eu percebi e o larguei, para não matá-lo.”